Creio que há muito tempo ouvimos algo assim: “Soltar o passado. Curar as feridas. É abrir espaço para o novo.” Sempre entendi essa mensagem como uma questão da alma.
No entanto, a realidade de muitas pessoas parece seguir na contramão dessa sabedoria antiga, pois insistem, a todo custo, em evitar a dor. Talvez por isso se apeguem à bolha da doença e da promessa de cura através do remédio.
Na clínica psicanalítica, escuto inúmeras queixas e percebo um padrão: a busca constante por um diagnóstico, em vez de um real empenho na jornada do autoconhecimento. Muitos querem um nome para sua dor, mas poucos estão dispostos a usar a força de vontade para compreendê-la e transformá-la.
O que muitas vezes rouba o gosto pelo bem-estar não é a dor em si, mas o círculo vicioso doença x remédio. O agravante está na medicalização voluntária como forma de silenciar os sintomas. Eis, portanto, a fonte e a origem do sofrimento: a ilusão de que o alívio imediato equivale à verdadeira cura.
Como sempre faço neste blog, falo do meu cotidiano. Espero que minha experiência inspire você. Venho aplicando esse olhar sobre a vida há muito tempo, antes mesmo de estudar a psique. Não sei ao certo qual foi o marco zero, talvez meu segundo divórcio. O fato é que, a partir dali, comecei a implementar estratégias para um bem-viver. Fiz isso baseado em experiências pessoais e, mais tarde, fui estimulado pela leitura da filosofia estoica. Resumindo, encontrei o caminho tateando no escuro. E foi através da escrita sobre minhas emoções que permiti à dor se transformar em sabedoria.
Hoje, na clínica, me deparo com pessoas imersas em uma bolha de realidade, presas por algemas invisíveis do senso comum. E a pior parte? Elas estão sofrendo e não sabem o que fazer para se livrar das frustrações e do desalento frente à vida.
Quando falamos para nós mesmos sobre nossas emoções e somos honestos com nossos sentimentos, podemos exercer o auto perdão de forma libertadora. E o efeito positivo disso? Eliminamos a prisão da culpa. Na prática da minha clínica psicanalítica, esse tem sido o verdadeiro mote do sucesso: permitir que a dor seja compreendida, integrada e, assim, transformada.
Por fim, vivemos em um tempo em que o alívio imediato parece mais importante do que a verdadeira cura. A dor psíquica, que deveria ser compreendida e ressignificada, é frequentemente silenciada por diagnósticos superficiais e soluções químicas instantâneas. No entanto, fugir da dor não a elimina — apenas a recalca, fazendo com que retorne em formas ainda mais complexas.
O verdadeiro caminho para a saúde emocional não está em remédios milagrosos ou rótulos confortáveis, mas no ato corajoso de se encarar. Envolve aceitar a dor como parte do processo e compreendê-la, em vez de sufocá-la. Envolve sair da bolha da anestesia emocional e mergulhar na jornada do autoconhecimento.
E essa jornada não começa com grandes revoluções, mas com pequenos atos de sinceridade consigo mesmo. Com o simples gesto de perguntar:
“O que essa dor quer me ensinar?”
A resposta não está fora, mas dentro. Sempre esteve.

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