Desde cedo, aprendemos a desejar.
A sociedade nos ensina que felicidade está em conquistar: sucesso, reconhecimento, amor, poder.
Olhamos para essas metas como se fossem o destino final, acreditando que, ao alcançá-las, sentiremos plenitude.
Mas será que o desejo nos leva à liberdade ou nos aprisiona?
O desejo e a ilusão do ego
Muitas vezes, o que mais queremos não nasce de uma escolha autêntica.
É o ego que deseja.
E o ego, por natureza, se alimenta de carências, traumas e expectativas alheias.
Jung ensina que a psique humana é composta por camadas profundas — o ego, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo.
Se o ego se convence de que algo externo nos completará, ele nos arrasta por caminhos que, paradoxalmente, nos afastam de nós mesmos.
Nesse cenário, o desejo se torna uma prisão sutil.
Uma armadilha.
O ciclo do apego
Quero contar uma história.
Um homem comum, trabalhador, pai de muitos filhos, alguém que respeita as leis e tem grande consideração por seus superiores.
À primeira vista, um sujeito equilibrado.
Mas por dentro, ele está aprisionado.
Não pela rotina, nem pelos desafios da vida.
Seu tormento vem da forma como enxerga sua ex-mulher.
Ela é uma pessoa comum, como tantas outras. Mas, na mente dele, tornou-se única, insubstituível, idealizada.
Prova disso são as declarações constantes:
“É a mulher da minha vida.”
“Eu amo essa mulher.”
Mas a realidade é outra.
Se reuníssemos os boletins de ocorrência acumulados ao longo dos anos, daria para escrever um livro.
Detenções. Medidas protetivas. Separações e reconciliações.
E o mais intrigante?
Não é só ele que está preso nesse ciclo.
Ela também o procura, reiniciando a mesma história.
Desde que os conheço, em média, duas situações graves acontecem por ano.
E a pergunta que não cala: por que insistimos no que nos destrói?
O desejo pode ser uma fuga
Nem sempre insistimos no que é bom.
Às vezes, insistimos no que nos é familiar.
O apego nos convence de que não podemos perder.
Nos faz acreditar que o outro nos pertence.
Nos prende à ilusão de que sem aquilo — sem aquela pessoa, aquele status, aquele sonho — seremos incompletos.
Mas será que o desejo realmente nos leva à realização?
Ou apenas nos mantém correndo em círculos?
Quando o desejo se torna destrutivo
Quantas vezes já alcançamos algo e, logo depois, percebemos que a satisfação não durou?
Quantas vezes o desejo nos cegou para os sinais óbvios de que estávamos nos machucando?
O desejo pode nos consumir de diversas formas:
- Exaustão emocional: a busca incessante nos deixa vazios.
- Cegueira psicológica: ignoramos os sinais de alerta.
- Desconexão do Self: nos esquecemos de quem realmente somos.
A grande armadilha do desejo é essa: ele sempre promete um depois.
Depois que eu conseguir, serei feliz.
Depois que essa pessoa voltar, minha vida estará completa.
Depois que eu conquistar isso, tudo fará sentido.
Mas esse depois nunca chega.
Porque o que nos falta não está fora.
O paradoxo da renúncia
A ideia de abrir mão parece fracasso.
Mas, às vezes, renunciar é o maior ato de autoconhecimento.
Jung chamava isso de individuação: o processo de se tornar quem realmente somos.
Nem tudo o que desejamos nos pertence.
Nem tudo o que queremos nos fará bem.
Muitas vezes, o que chamamos de amor é apenas um apego ferido.
E o que chamamos de desejo é só uma ilusão do ego.
A verdadeira liberdade
Liberdade não é conquistar tudo.
É saber o que realmente importa.
Renunciar a um desejo ilusório não é perder, é ganhar.
É abrir espaço para o que é verdadeiro.
Algumas pessoas passam a vida presas ao que nunca foi delas.
Outras despertam e escolhem seguir adiante.
E você?
Está pronto para soltar o que te aprisiona?

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