Nesta manhã de temperatura amena, enquanto dirigia pela rodovia 364 em direção ao sul, observei a paisagem urbana da minha cidade e me peguei refletindo: as escolhas que fazemos na vida se assemelham ao fluxo incessante dos veículos. A estrada sobre a qual os pneus deslizam representa a base de nossa movimentação, assim como a cultura sobre a qual assentamos nossa visão de mundo.
Pessoas que nunca pisaram em vias pavimentadas e bem-sinalizadas — como aquelas das zonas rurais — vivem em sintonia com a natureza. Elas se encantam com o nascer e o pôr do sol, observam a chuva como um espetáculo necessário à vida e compreendem as colheitas como um ciclo inevitável da existência. Para elas, a relação com o mundo é direta, sem intermediários. Já os que vivem nas cidades raramente olham para o céu, raramente percebem os ritmos naturais.
Hoje, um detalhe me fez parar. Na entrada da cidade, vi uma placa onde se lia: “EU AMO”, seguida do nome do lugar. Algo me fez sair da via principal e estacionar no canteiro. De dentro do carro, enquadrei minha câmera e capturei a cena: os raios dourados do sol refletindo na grama verde, a estrada escura riscada por faixas brancas e os veículos apressados compondo o fundo da imagem.
Então, observei as pessoas ao redor. O gramado vibrava em verde vivo, e as pequenas palmeiras, banhadas pelos primeiros raios de sol, dançavam ao ritmo de uma brisa suave. Vi pessoas fotografando a placa. Mas ninguém registrava a natureza.
O que nos faz valorizar um símbolo criado pelo homem mais do que a beleza bruta da vida?
Talvez a cultura nos tenha tornado insensíveis ao que nos cerca. Assim como as rodovias permitem que os carros avancem em alta velocidade, nós vivemos projetados no amanhã — sempre apressados, sempre olhando para frente, raramente para os lados. O presente se dissolve diante de nós sem que percebamos.
Parei e pensei: as pessoas fotografam a placa porque ela as representa. A natureza não exige reconhecimento, não traz pertencimento imediato — ela simplesmente existe. A placa preenche um espaço na cultura humana, enquanto a paisagem toca algo mais profundo, algo que esquecemos como sentir.
Sim, estamos nos tornando insensíveis.
Às vezes, é preciso parar. Sair da estrada principal. Respirar. Observar a beleza ao redor e se reconectar com o agora.
Afinal, qual o sentido de seguir por caminhos pavimentados por outros, sem jamais nos permitirmos trilhar nossa própria jornada?

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