Penso que todos, em algum momento, se decepcionam. Às vezes, nos tornamos excessivamente críticos ou até pessimistas diante da vida. Mas, como em todas as regras, há exceções — e são elas que nos permitem seguir em frente.

Há um ditado português antigo que diz: “Navegar é preciso, viver não é preciso.” À primeira vista, pode soar dramático, mas, ao refletirmos um pouco, percebemos que essa frase contém uma verdade essencial sobre a existência. O mundo não para porque estamos tristes ou frustrados; nossas dores não alteram o ritmo da vida. Ela continua, indiferente aos nossos sentimentos.

Meu escritor favorito, Ernest Hemingway, talvez tenha escrito um dos melhores romances que já li. Em O Velho e o Mar, ele traz uma mensagem poderosa: “O homem pode ser destruído, mas nunca derrotado.” Essa ideia traduz perfeitamente o que desejo abordar nesta reflexão: o sofrimento é inevitável, mas sucumbir a ele é uma escolha.

A grande questão das decepções e tristezas é que, na maioria das vezes, projetamos o problema para fora. Culpar os outros, a vida ou as circunstâncias é um mecanismo de defesa comum. Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, argumenta que vivemos na era da autoexploração, onde o indivíduo se vê inteiramente responsável por seu próprio sucesso e fracasso. Essa mentalidade cria uma carga emocional devastadora: ao falhar, sentimos culpa e vergonha; ao sofrer, acreditamos que fomos injustiçados. No entanto, esquecemos um ponto essencial: a dor não é um erro, mas um elemento constitutivo da vida.

Aqui entra Viktor Frankl, psicólogo e sobrevivente do Holocausto. Em Em Busca de Sentido, ele afirma que o sofrimento se torna insuportável apenas quando carece de propósito. Não podemos controlar todas as circunstâncias da vida, mas podemos escolher como reagimos a elas. É nessa escolha que reside nossa verdadeira liberdade. Se nos agarramos ao ressentimento e à autopiedade, a vida se torna um fardo. Mas se conseguimos extrair sentido das adversidades, até as maiores dores podem nos transformar.

E talvez esse seja o grande problema das decepções: esperamos que a vida nos poupe do sofrimento, mas esquecemos que são justamente as adversidades que moldam quem somos. Frankl dizia que quem tem um “porquê” para viver pode suportar qualquer “como”. O que nos falta, muitas vezes, não é a ausência de dor, mas um propósito claro que a torne suportável.

Byung-Chul Han, por sua vez, critica nossa busca incessante pelo prazer e pelo sucesso instantâneo. Vivemos em uma sociedade que repele qualquer tipo de frustração, onde tudo deve ser rápido, eficiente e gratificante. O menor obstáculo já parece inaceitável. No entanto, ao tentarmos evitar o sofrimento a qualquer custo, tornamo-nos mais frágeis, menos resilientes e, paradoxalmente, mais infelizes.

A resposta, talvez, esteja na aceitação: aceitar que a dor faz parte da jornada, que a frustração é inevitável e que as decepções são oportunidades para crescimento. Como Hemingway disse, podemos ser destruídos pelas circunstâncias, mas nunca realmente derrotados — a menos que nos entreguemos ao desespero.

Se há algo que podemos aprender com Frankl e Byung-Chul Han, é que a dor não pode ser evitada, mas pode ser ressignificada. A pergunta não deve ser “Por que isso aconteceu comigo?”, mas sim “O que posso aprender com isso?”. Afinal, a vida sempre continua, e cabe a nós decidirmos como seguir em frente.

E você? Como encara suas decepções e momentos de tristeza?

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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