Poderia ser um dia qualquer, mas quis o destino que hoje eu despertasse antes mesmo dos primeiros raios do sol. Há exatos 59 anos, foi numa manhã como essa que vi a luz pela primeira vez.
Minha mãe costumava contar que seu bebê nasceu roxo e sem movimentos. A parteira precisou massageá-lo por longos instantes, insistindo contra o silêncio do meu corpo inerte. Foram as mãos de uma desconhecida, cujo nome jamais saberei, que me arrancaram do limiar entre o nada e a vida. Nasci sem vida — e, de alguma forma, voltei. Desde então, me pergunto se há um propósito nisso.
Não há outro meio de compreender a existência sem olhar para o passado. Embora eu não faça isso com frequência, percebo que essa viagem é essencial para a autocompreensão. E ao revisitar minha própria história, uma questão sempre ressurge: por que nos tornamos conscientes?
Mais intrigante ainda: por que nos questionamos?
A maioria das pessoas parece não se ocupar com isso. Elas se contentam em ter, em detrimento de ser. Talvez essa seja uma forma mais simples de suportar a existência: olhar-se no espelho, sentir-se seguro, alimentado, confortável. Mas, para mim, nunca foi assim.
O Momento da Consciência
Recentemente, enquanto lia sobre a psique, deparei-me com uma teoria que dizia que a consciência humana, em termos evolutivos, é algo recente. Isso fez sentido para mim. Por milhares de anos, existimos sem nos perguntar quem somos, de onde viemos ou para onde vamos. Sobrevivíamos, simplesmente. Instinto, reprodução, repetição — como os animais que hoje observamos na natureza.
Mas, em algum momento, algo mudou.
A consciência não surgiu de repente. Foi um despertar gradual, um processo silencioso que nos separou do simples existir e nos lançou na inquietante busca por significado. Houve um tempo em que éramos apenas mais uma espécie entre tantas outras. No entanto, um dia, olhamos para o céu e nos perguntamos:
“O que há além disso tudo?”
Esse instante — seja ele o primeiro enterro de um ente querido, o primeiro fogo aceso com intenção, o primeiro símbolo gravado em uma pedra — marcou o início de algo irreversível. Deixamos de ser apenas seres que vivem para nos tornarmos seres que questionam o próprio viver.
Mas será que essa consciência foi um presente ou uma condenação?
O Paradoxo da Existência
Ser consciente significa saber que existimos. Mas também significa saber que um dia não existiremos mais. E talvez aí resida o maior paradoxo da experiência humana: tomamos consciência da nossa própria finitude. Isso nos assusta e, ao mesmo tempo, nos impulsiona.
Criamos religiões, filosofias e sistemas de pensamento para tentar responder à angústia fundamental da existência. “Por que estamos aqui?” “Temos um propósito?” “A vida precisa de um sentido ou é nossa mente que exige isso?”
Se a consciência é apenas um subproduto da evolução biológica, por que nos atormentamos com perguntas que nenhum outro ser vivo parece fazer?
Talvez a resposta esteja dentro de nós mesmos. Talvez essa inquietação não seja um erro da natureza, mas um chamado.
E eu sigo nessa busca.

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