Nietzsche dizia: “Eu sou vários”.
Para ele, a identidade humana não é fixa, mas composta por múltiplas forças e impulsos em constante conflito. Essa multiplicidade interna explica por que, em certos momentos da vida, podemos nos sentir deslocados.
Mesmo que tudo ao nosso redor continue igual. As pessoas em nossas relações seguem suas rotinas, o trabalho exige o de sempre, a vida social se mantém previsível – e, ainda assim, sentimos um vazio profundo, como se estivéssemos fora de lugar.
O que acontece dentro de nós nesses momentos?
Jung nos oferece uma chave para compreender essa inquietação.
Ele fala sobre o processo de individuação. Segundo ele, há períodos em que o inconsciente se manifesta de forma intensa, trazendo à tona aspectos da psique que antes estavam ocultos. Esse despertar interno gera um descompasso: aquilo que fazia sentido até ontem já não nos preenche, mas o mundo ao redor espera que sigamos os mesmos. Essa contradição nos empurra para crises existenciais.
A crise, porém, não é um erro. Ela é um chamado.
O desconforto surge quando uma parte de nós deseja evoluir.
Mas o ego resiste, preso a antigas seguranças. Pense em alguém que permaneceu por anos em um relacionamento que já não o faz feliz, mas evita sair por medo de ficar sozinho. Ou em um artista que sente necessidade de explorar novos estilos, mas receia perder a aceitação do público. O medo do desconhecido pode ser paralisante, mas também é a porta para a verdadeira mudança. É como alguém que permanece em um emprego que já não o satisfaz, mas teme arriscar-se em algo novo. O medo do desconhecido o mantém onde está, mesmo que a insatisfação cresça a cada dia. No entanto, negar essa inquietação só prolonga o sofrimento. Nietzsche nos convida a abraçar o caos interno, pois é nele que encontramos o potencial para criar um novo significado. Jung complementa essa ideia ao mostrar que a integração dos nossos aspectos desconhecidos é o que nos conduz ao verdadeiro crescimento.
Se nos sentimos perdidos, talvez não seja porque estamos errados, mas porque uma nova identidade está tentando emergir, assim como a borboleta que precisa romper seu casulo para voar. O desconforto não é um sinal de fracasso, mas de transformação. Nossa alma sussurra que é hora de mudar, mas o medo do desconhecido nos paralisa. O que fazer então?
A resposta não está em voltar atrás e ignorar o chamado interior.
Ela está em ter a coragem de olhar para dentro e ouvir o que essa crise tem a dizer. Entenda que sentir-se perdido não significa estar sem direção, mas sim no meio de um processo de transição. Cada grande transformação passa por esse estágio antes de se concretizar. Permita-se questionar, refletir e mudar.
Comece com pequenas ações: escreva sobre seus sentimentos, converse com alguém de confiança ou experimente algo novo que ressoe com sua inquietação. O primeiro passo pode ser pequeno, mas é essencial para iniciar a transformação. Porque, no fim, o que nos causa angústia não é a mudança em si, mas a tentativa de permanecer onde já não pertencemos.
Quando tudo ao redor parece o mesmo, mas nós mudamos, talvez seja hora de deixarmos de tentar caber no mundo antigo e começarmos a construir um novo.

Deixe um comentário