Vivemos uma era em que ser visto tornou-se sinônimo de existir. A exposição incessante nas redes sociais transformou a identidade em uma vitrine frágil, onde a validação externa dita o valor individual.
Dentro desse contexto, há uma expressão que me chama atenção: “vidraça de narcisistas.”
Uma metáfora poderosa para descrever a sociedade hiperexposta e carente de validação em que vivemos.
O Jogo da Aparência e a Fragilidade da Imagem
O narcisismo moderno não é apenas a exaltação do ego, mas um pedido constante por aprovação. Cada foto postada, cada opinião compartilhada carrega consigo uma expectativa silenciosa de curtidas, comentários e reafirmação.
Mas essa autoimagem construída no digital é frágil como uma vidraça:
- Qualquer crítica pode rachá-la.
- Qualquer falta de engajamento pode estilhaçá-la.
A grande ironia é que essa busca por validação gera um paradoxo:
- Quanto mais dependemos do olhar externo, mais frágeis nos tornamos internamente.
- Quanto mais expostos estamos, mais inseguros ficamos.
As redes sociais transformaram a identidade em um espelho de vidro fino, onde a imagem projetada precisa ser constantemente polida e protegida — mas qualquer impacto pode quebrá-la.
O Caso da Paciente e a Ilusão do Caos
Certa vez, atendi uma paciente visivelmente aflita. Assim que entrou na sala, disse com urgência:
“Doutor, minha vida está um caos total!”
Pela intensidade da fala, imaginei que se tratava de um problema grave. Mas, ao aprofundar a conversa, descobri que sua angústia vinha do fato de não conseguir manter a mesma frequência de postagens no Instagram comparado aos meses anteriores.
Por um instante, fiquei sem palavras.
Respirei fundo e, para não desvalorizar sua angústia, fiz a pergunta mais óbvia possível:
“Quantos seguidores você tem?”
A resposta veio sem hesitação: 190 seguidores.
Minha pergunta foi retórica, mas, internamente, fiquei chocado e até nostálgico. Houve um tempo em que as principais queixas em consultórios psicanalíticos giravam em torno de relações familiares: marido, esposa, pai, mãe, sogros. Hoje, a angústia central de muitos está ligada ao número de curtidas, seguidores e engajamento digital.
A Ilusão do Controle Sobre a Própria Imagem
A “vidraça de narcisistas” também revela a grande ilusão do controle sobre a forma como queremos ser percebidos. Criamos uma persona digital, planejamos cada detalhe do que mostramos ao mundo, mas nunca temos domínio sobre como os outros nos enxergam.
E o que acontece quando essa vidraça se estilhaça?
- O choque da rejeição.
- O medo do cancelamento.
- O vazio do esquecimento digital.
Eventos que nos lembram de uma verdade incômoda: a identidade projetada é tão frágil quanto o vidro que a sustenta.
Liberdade é Não Precisar da Vidraça
Talvez a verdadeira liberdade não esteja em reforçar essa estrutura frágil, mas em abandoná-la.
- Não precisar ser visto para existir.
- Não depender da validação alheia para sentir-se completo.
Para isso, é preciso olhar para dentro, e não para o reflexo que os outros projetam sobre nós.
Afinal, o que vale mais: ser uma vidraça frágil ou uma rocha inabalável?
O que você acha? Esse conceito faz sentido para você?

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