Às vezes, percebo que posso parecer confuso ou até desfocado nos temas sobre os quais escolho me debruçar. Minha companheira, Deise, costuma dizer que tenho uma certa rigidez de pensamento, já que passo dias refletindo sobre uma única questão. Por exemplo, tento compreender por que pessoas boas, que praticam o bem, frequentemente enfrentam mais sofrimento do que aquelas que seguem pelo caminho do mal. Ou ainda, como o mal começou? Por que ele existe?

Desde a infância, fui ensinado que aquilo que não entendemos devemos aceitar como a vontade de Deus. Contudo, essa ideia nunca me trouxe conforto completo. Esses questionamentos sempre ocuparam minha mente, como um ruído de fundo constante, desafiando a aceitação passiva que me foi ensinada.

Na busca por respostas, deparei-me com uma ideia intrigante da visão espiritualista: a de que parte do Ser Criador teria ficado preso na própria criação, como se apenas o “Eu do Ser Criador” tivesse sido projetado em nosso universo. Imagine um artista que, ao pintar sua obra-prima, se vê aprisionado em sua própria tela. Essa fragmentação teria gerado rupturas no que poderia ser o “projeto” deste universo. Ao longo de milhões de anos, essa essência teria tentado se reconstruir e retornar à condição de unidade, mas sem sucesso. As falhas desse processo, segundo essa visão, ecoam em nossa experiência cotidiana, como rachaduras em um edifício que, mesmo magnífico, não é estruturalmente perfeito.

Embora essa perspectiva espiritualista seja instigante, ela também nos leva a confrontar um paradoxo: por que a justiça divina, amplamente pregada pelas religiões, parece contradizer a realidade? Somos apresentados à ideia de um Deus justo e magnânimo, mas o mundo ao nosso redor conta uma história diferente. Vivemos como sobreviventes, muitas vezes guiados por instintos básicos, onde a lei do mais forte frequentemente impera. A justiça que tanto esperamos para os justos, muitas vezes, não se manifesta.

Essa contradição não é apenas um dilema teológico; é um desafio inerente à experiência humana. O sofrimento, que tentamos evitar, racionalizar ou ignorar, está sempre presente, como um dado empírico que atravessa culturas, eras e crenças. Ele se manifesta em grandes tragédias e nas pequenas dores do dia a dia: a perda de um ente querido, a rejeição, as dificuldades financeiras. Esse sofrimento nos desafia não apenas a buscar respostas externas, mas também a olhar para dentro e encontrar significado.

E aqui entra o papel transformador do autoconhecimento. Talvez a resposta não esteja em encontrar uma justiça universal ou uma explicação final para o sofrimento, mas em aceitar que a vida, com todas as suas imperfeições, é um convite ao crescimento. Pense no sofrimento como uma pedra bruta. Ele é áspero, difícil de carregar, mas contém em si o potencial para ser lapidado e transformado em algo precioso. Essa aceitação, no entanto, não é resignação; é um chamado à ação e à transformação.

O verdadeiro autoconhecimento começa quando paramos de buscar culpados ou justificativas externas para nossa dor e voltamos o olhar para dentro. Quando aceitamos que somos tanto criadores quanto vítimas do universo que habitamos, abrimos espaço para a mudança. É como assumir o leme de um barco em meio a uma tempestade: não podemos controlar o vento ou as ondas, mas podemos ajustar nossas velas e encontrar o equilíbrio. Nesse processo, descobrimos a força para transformar o sofrimento em clareza, a confusão em propósito e a condição de sobreviventes em protagonistas de uma jornada de transcendência.

No fim, o que realmente importa não é encontrar todas as respostas, mas ter a coragem de encarar o caos — tanto externo quanto interno — e usá-lo como matéria-prima para algo maior. Somos como peças de um mosaico: cada fragmento carrega uma história, uma dor, mas, ao nos reconstruirmos, nos tornamos parte de algo muito mais belo e completo. É nesse esforço de nos remontar, peça por peça, que nos aproximamos da nossa verdadeira essência.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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