Como você se comporta no dia a dia? Reage impulsivamente ou reflete antes de agir?
Essas perguntas me levam a pensar sobre as forças que nos moldam: instinto e espírito. Também me fazem lembrar do meu falecido pai, que, com suas contradições, influenciou profundamente minha visão de mundo e minha jornada de autoconhecimento.
Meu pai nasceu no início do século 20, em um tempo em que valores como honra, palavra e trabalho duro eram pilares inquestionáveis da sociedade. Essa época moldou sua personalidade rígida e seu modo concreto de enxergar o mundo. Para ele, tudo era preto no branco – não havia espaço para ambiguidades. “Sim ou não”, dizia ele, como se a vida pudesse ser resumida a escolhas binárias.
Apesar dessa rigidez, ele tinha uma fé inabalável nas pessoas. Bastava alguém lhe dar a palavra de honra para que ele dispensasse contratos e documentos. Esse comportamento, típico de sua geração, muitas vezes lhe trouxe prejuízos. Ele foi enganado em diversos negócios e, apesar de sua determinação em construir um patrimônio para a família, faleceu sem grandes bens.
Ainda assim, havia algo admirável nele: sua capacidade de enfrentar desafios com intensidade e paixão. Lembro-me de como ele nos levava, a mim e aos meus irmãos, para visitar uma propriedade que havia comprado. Ele dizia, cheio de orgulho: “Isso será a herança de vocês.” Era um homem que acreditava profundamente no futuro e na ideia de que seu trabalho seria recompensado.
Essa fé, por mais que fosse desafiada pelas circunstâncias, guiava suas ações. Ele acreditava que havia uma força maior cuidando de suas escolhas, uma espécie de julgamento futuro. Para ele, a fé não era apenas crença, mas um compromisso com a retidão e o esforço. Essa visão, embora idealista, foi também sua fonte de força.
Por outro lado, ele também reagia com veemência quando se sentia desafiado, o que revela outro aspecto de sua personalidade. Penso que sua visão de mundo se aproxima do pensamento de Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do homem.”
Hobbes descreve a natureza humana como essencialmente competitiva e, em certas situações, destrutiva. Essa competitividade se manifestava em meu pai nos momentos em que ele sentia sua autoridade ou posição questionada.
Um episódio marcante da minha infância ilustra bem isso. Eu tinha cerca de seis anos. Estávamos em uma estrada de terra quando um carro nos ultrapassou, e o motorista fez um gesto provocativo. Meu pai, que até então estava calmo, transformou-se completamente. Ele começou a perseguir o veículo como se não houvesse amanhã. Minha mãe tentou, em vão, acalmá-lo. Ele só parou quando ela sugeriu que nos deixasse no sítio antes de continuar. Mesmo assim, ele disse algo que nunca esqueci: “Uma pessoa que age assim não merece viver.”
Esse episódio, que na época me assustou, hoje me faz refletir sobre como muitas vezes somos guiados por nossos instintos primitivos. Como mamíferos, somos reativos, facilmente provocados por situações que ferem nosso orgulho ou desafiam nossa posição. Somos, por natureza, instintivos.
Lembro-me, por exemplo, de quando fui mordido por um cachorro ao provocá-lo com caretas. Era um desafio tolo, mas suficiente para despertar seu instinto de defesa. Assim como meu pai naquele episódio na estrada, o cachorro reagiu com o que tinha de mais primitivo: a autopreservação.
Mas o que nos diferencia dos demais seres vivos é a capacidade de transcender essa biologia. Existe em nós algo mais profundo: o espírito humano. É ele que nos permite refletir, crescer e escolher conscientemente nossas ações. O espírito nos dá a chance de interromper o ciclo de reações automáticas e agir de forma mais elevada.
Ao longo da minha vida, deixei de acreditar em utopias, como o “mundo perfeito” ou a ideia de uma consciência cósmica que nos governa. Acredito, em vez disso, que somos responsáveis por nossas escolhas. Nosso verdadeiro poder está em como lidamos com nossos instintos e em como usamos nosso espírito para encontrar equilíbrio.
Olhando para meu pai, vejo um homem cheio de contradições. Ele era rígido e impulsivo, mas também romântico e cheio de fé. Sua crença em algo maior, embora às vezes ingênua, o guiava e lhe dava força para continuar, mesmo diante dos desafios.
Essa fé, percebo agora, não precisa ser literal para ter valor. Ela pode ser o que nos impulsiona a buscar algo maior – seja um ideal, uma evolução pessoal ou a coragem de enfrentar os desafios da vida. Meu pai me ensinou, mesmo sem querer, que o verdadeiro autoconhecimento começa quando reconhecemos nossas contradições e entendemos que somos tanto instinto quanto espírito.
O maior desafio do autoconhecimento, percebo, é decidir qual dessas forças irá nos guiar. Somos mais do que reações automáticas, mas isso exige esforço, reflexão e uma disposição para evoluir.
No final, não importa o que o mundo nos provoca. O que realmente importa é como escolhemos responder. É nessa escolha que reside nossa liberdade – e, com ela, o caminho para nos tornarmos versões melhores de nós mesmos.

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