Aprendi que temos escolhas, que possuímos um livre-arbítrio. No entanto, isso nunca me pareceu totalmente verdadeiro. Como assim, nossas escolhas são livres e conscientes? Hoje, penso que absolutamente não.
O que sempre me chamou atenção sobre esse tema foi a ênfase dada pelas religiões antigas, algo que considerei muito suspeito. Refleti sobre a razão da existência do livre-arbítrio, especialmente à luz da visão da divindade bíblica, que afirmava que nem mesmo uma folha caía de uma árvore fora de seu controle. Ora, então, o que dizer da vontade do indivíduo?
Na filosofia de Kant, aprendemos que só é livre o indivíduo que age contra os próprios desejos. Essa foi a primeira ideia que me veio à mente. Penso que, desde o início, nossos desejos são influenciados, em grande parte, por pensamentos que não são puramente nossos. Por exemplo, ao refletir sobre decisões importantes, você já percebeu como certas ideias ou sentimentos parecem surgir “do nada” e, muitas vezes, resolvem um problema de forma surpreendente? Isso demonstra como nossas escolhas podem ser condicionadas por fatores que nem sempre compreendemos conscientemente.
Mais tarde, ao estudar técnicas de hipnose, observei algo intrigante: as pessoas mais suscetíveis a sugestões hipnóticas eram, em sua maioria, religiosas, indivíduos profundamente dogmáticos. Esses perfis pareciam ser mais permeáveis à influência de ideias externas, o que me levou a questionar até que ponto somos verdadeiramente livres em nossas escolhas e pensamentos. Talvez a rigidez de um sistema de crenças torne mais fácil a aceitação de comandos, diminuindo a percepção de autonomia.
Durante uma palestra, ouvi sobre uma hipótese introduzida por Julian Jaynes. Ele argumentou que os ancestrais humanos, até os antigos gregos, não consideravam emoções e desejos como provenientes de suas próprias mentes, mas como ações atribuídas a deuses externos. Essa perspectiva histórica reforça a ideia de que, por muito tempo, os humanos não se viam como agentes conscientes de suas decisões.
Jaynes postulou que a mente humana já operou em um estado em que as funções cognitivas eram divididas entre duas partes: uma que “falava” e outra que escutava e obedecia — a chamada mente bicameral. Ele sugeriu que a ruptura dessa divisão deu origem à consciência nos seres humanos.
O termo “mente bicameral” foi cunhado por Jaynes em seu livro de 1976, The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind. Ele defendeu que esse estado mental bicameral era o padrão normal e onipresente da mente humana até cerca de 3.000 anos atrás, no final da Idade do Bronze no Mediterrâneo. Essa teoria, embora controversa, nos faz refletir sobre o quanto a evolução da consciência impacta nossa percepção de liberdade.
Hoje, acredito que o livre-arbítrio depende do grau de evolução da consciência do indivíduo. À medida que este empreende a jornada do autoconhecimento, torna-se mais livre para escolher conscientemente. Um exemplo claro disso está em práticas de meditação e introspecção, que ajudam a reconhecer influências externas e internas sobre nossas decisões. Quanto mais entendemos nossas motivações e condicionamentos, mais livres nos tornamos para agir de forma alinhada com nossa essência.
Por outro lado, também é importante considerar as descobertas da neurociência. Estudos sugerem que muitas de nossas decisões são tomadas inconscientemente antes mesmo de nos darmos conta delas. Isso levanta uma questão instigante: o que chamamos de “livre-arbítrio” seria apenas uma ilusão criada pelo nosso cérebro para dar coerência às nossas ações?
Apesar dessas reflexões, mantenho a convicção de que o autoconhecimento é a chave para alcançar um grau maior de liberdade. A jornada para dentro de nós mesmos não elimina todas as influências externas, mas nos permite escolher com mais consciência quais delas queremos acolher e quais rejeitar.
Por fim, a verdadeira liberdade não é a ausência de influências, mas a capacidade de reconhecê-las e decidir com consciência. Quanto mais nos conhecemos, mais livres nos tornamos — e talvez esse seja o maior exercício de livre-arbítrio que podemos realizar.

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