Como mencionei em um post anterior deste blog, estou vivendo um ano sabático. Em outras palavras, estou buscando novos propósitos e experiências. Sou, por natureza, um indivíduo racional — quase nada em mim acredita no que não experimentei ou que foge ao meu conhecimento. Por isso, decidi que este período seria dedicado a reflexões mais profundas. Escolhi me concentrar na transcendência do ser humano e na relação com a criação.

A busca pelo sentido da vida e pela compreensão do universo é um chamado que atravessa gerações. Para muitos, essa jornada é marcada pela conexão com a espiritualidade, pela tentativa de compreender o Criador e pelo desejo de transcender as limitações do ego. Este texto é fruto de uma caminhada de sete anos, permeada por reflexões sobre o cotidiano, questões psicológicas e filosóficas, e, mais recentemente, sobre a figura do Criador que tantos chamam de Deus.

Antes de descartar essa perspectiva, convido você a considerar que o universo não surgiu do nada. Algo existia antes do que chamamos de criação, há cerca de 13,5 bilhões de anos. O caos, por si só, nada cria; é preciso haver uma ordem subjacente. Talvez por isso o chamemos de “universo” — a própria palavra sugere unidade e organização.

O Criador Preso à Criação

Uma das ideias mais fascinantes que emergem de tradições esotéricas e espirituais é a possibilidade de que o Criador, ao dar origem ao universo, tenha se conectado tão profundamente a ele que também ficou “preso” à sua criação. Essa visão encontra ecos na Cabalá, com o conceito de Tzimtzum, no qual Deus cria espaço para o universo existir ao “contrair” sua luz infinita.

Essa imagem de um Deus intrinsecamente ligado à sua criação não contradiz, mas enriquece a ideia de transcendência. Sugere que, ao compreendermos a nós mesmos, também nos aproximamos do divino. Afinal, se o Criador está presente em tudo, Ele também está dentro de cada um de nós.

A Transcendência do Ego ao Espírito

A evolução humana não se limita ao progresso material ou intelectual. Existe uma dimensão espiritual que precisa ser explorada, uma jornada que nos leva além do ego para aquilo que Jung chamou de Self — o centro de nossa totalidade psíquica.

As religiões, embora frequentemente voltadas à organização social, muitas vezes falham em promover essa transcendência. A verdadeira espiritualidade, no entanto, emerge na busca interior: no silêncio, na reflexão e na conexão profunda com o mundo ao nosso redor. É ali que a transformação do ego em espírito começa a tomar forma.

Outro dia, recebi em meu escritório uma autoridade eclesiástica, um religioso de longa data. Durante nossa conversa, aproveitei para questioná-lo sobre seus pontos de vista em relação ao propósito da existência. Perguntei: qual o propósito disso tudo? Será que existe um?

Ele discorreu por alguns minutos sobre a fé e, ao final, afirmou que não cabe a nós questionar — basta crer. Para ele, isso era suficiente. Confesso que a resposta me lembrou a fala de Chicó no filme O Auto da Compadecida: “Não sei, só sei que foi assim.” Essa simplicidade me fez refletir sobre como diferentes visões podem abordar o mesmo mistério com respostas que, às vezes, parecem distantes de uma explicação completa.

O Criador que os Humanos Conhecem

O Criador é chamado por muitos nomes e descrito de diversas formas ao longo das culturas e tradições. O mesmo Deus do meu convidado, chamado de Javé ou Yahweh, o Deus de Israel, é uma figura central no pensamento monoteísta. Seus atributos — justiça, compaixão, autoridade — refletem não apenas as crenças de uma época, mas também as necessidades humanas de compreender o divino.

Na Cabalá, Javé não é apenas um nome, mas um portal para a compreensão dos mistérios da existência. A ideia de que Deus está além de nossa compreensão direta, mas se revela em sua criação, oferece um caminho para explorar sua presença. Isso nos convida a um encontro íntimo com o divino, não apenas em textos sagrados, mas também em nossa própria experiência.

Um Chamado à Busca

Este texto não tem a pretensão de oferecer respostas definitivas, mas sim de convidar à reflexão. Afinal, a busca pelo Criador é, acima de tudo, uma jornada pessoal. Talvez nunca saibamos tudo sobre Deus, mas ao tentar compreendê-lo, inevitavelmente descobrimos mais sobre nós mesmos.

E nessa busca, encontramos a beleza do mistério: a capacidade de olhar para o universo com olhos que veem tanto a vastidão das estrelas quanto a profundidade de nossas almas.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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