O Milagre de Viver no Presente

O que vale a pena compreender na vida? Antes de responder a essa pergunta, permita-me contextualizar. Ao atingir a meia-idade, algo surpreendente aconteceu: os medos e muitos dos desejos típicos da vida adulta deixaram de guiar minhas escolhas. Essa mudança se revelou de forma clara em uma noite comum, durante uma confraternização entre os colegas de trabalho da minha companheira, Deise.

Como é comum nesses eventos, uma longa mesa estava posta, e o ambiente lembrava muito a própria repartição: rostos conhecidos frente a frente, criando aquele clima formal e característico do local de trabalho. Para os acompanhantes, como eu e outros familiares, era um primeiro encontro. Em certo momento, uma moça sentada à minha frente perguntou: “O que você faz na vida?”

A prontidão e simplicidade da minha resposta me surpreenderam: “Nada. Eu não faço nada de interessante.” Em outros tempos, eu certamente teria respondido algo como: “Sou advogado, psicanalista, autor, tenho dois negócios…” Mas, naquela noite, continuei de forma mais espontânea: “Faço muito do que amo. Cozinho em casa todos os dias e cuido do meu pequeno Jr., um ser que me fez repensar minhas prioridades. Mais do que isso, ele mudou o sentido da minha vida.”

O Jr. tem trissomia do cromossomo 21, e eu costumo chamá-lo carinhosamente de meu “amiguinho extraterrestre”. Ele é meu sétimo filho e foi quem realmente me fez desacelerar e viver no presente. Esse estado de percepção é, para mim, o único possível. Por isso, talvez eu não faça nada que os outros considerem interessante, mas vivo plenamente no presente. Evito reviver excessivamente o passado e não gasto meu tempo olhando demais para o futuro, afinal, ninguém sabe o que nos espera lá.

Quando afirmo com convicção que foi por meio do autoconhecimento que atingi um grau de realidade incomum entre as pessoas com quem convivo, digo isso porque essa jornada interior transformou minha vida. O autoconhecimento não é apenas um caminho de entendimento interno; ele melhora significativamente as relações interpessoais. Você deixa de levar as coisas para o lado pessoal, não se magoa com julgamentos alheios e aprende a ser mais empático e, sobretudo, mais seguro de si.

Você compreende, finalmente, que “os outros são apenas os outros” e que o que realmente importa é como você percebe a si mesmo e o mundo ao seu redor. Essa compreensão traz liberdade: liberdade do peso das expectativas alheias e da necessidade de validação externa.

A vida só revela seu verdadeiro significado quando nos permitimos viver plenamente no presente. Não se trata de acumular títulos ou impressionar os outros, mas de encontrar riqueza no simples: no riso de uma criança, no aroma de uma refeição feita com amor, na liberdade de ser quem realmente somos.

Por fim, ao abandonar o peso do passado e as expectativas irreais do futuro, descobrimos que a única resposta que importa é aquela que damos a nós mesmos. E essa resposta, quando guiada pelo autoconhecimento, transforma não apenas a percepção de quem somos, mas também o mundo ao nosso redor. Afinal, o presente não é apenas um instante; é o milagre que nos permite existir.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

Let’s connect