Qual é a verdadeira sensação da liberdade? O que significa, para você, estar livre?
A liberdade é, talvez, o mais importante dos direitos universais do indivíduo. Afinal, o próprio conceito de individualidade pressupõe a existência da liberdade.
Se olharmos para qualquer momento histórico, veremos que a punição mais severa sempre foi a supressão da liberdade. A prisão, por exemplo, representa a restrição física da liberdade, um castigo duro e absoluto. Mas hoje, não vamos falar dessa liberdade física. Nossa reflexão é sobre outra dimensão: a liberdade da alma.
“Quando você se sentir verdadeiramente desprovido de desejos, estará livre.”
Essa frase ecoou em meus pensamentos ao anoitecer, como uma verdade simples, mas profundamente reveladora. Nunca a havia compreendido de forma plena, até ontem à noite.
Era por volta das 23h. Voltava da edícula, caminhando calmamente ao lado da piscina. O clima estava ameno. O céu silencioso, e a quietude ao meu redor parecia espelhar algo dentro de mim. De repente, um pensamento me atingiu com a força de um insight: “Todo o esforço da existência não significa nada, se o futuro só existe como objeto do desejo.”
Num instante, inúmeros desejos que realizei ao longo da vida vieram à minha mente. Eles se espalhavam por todas as áreas: realizações pessoais, profissionais e relacionamentos. Tive uma paternidade substancial, com sete filhos, e concretizei todos os sonhos da juventude. Mas não foi por isso que senti o que senti. Foi algo mais profundo, algo que transcende conquistas ou experiências. Parecia um sentimento de extrema liberdade.
Por uns instantes, fiquei imóvel. Mas não senti tristeza nem decepção. O que me inundou foi algo completamente diferente: um alívio profundo, quase indescritível. Senti-me bem, muito bem. Pela primeira vez, experimentei uma liberdade que nunca havia sentido antes. Uma liberdade além da matéria, além da mente – uma liberdade do querer.
No entanto, a liberdade não é apenas um conceito metafísico. Para o indivíduo comum, ela frequentemente assume contornos mais concretos. É a liberdade de escolher, de caminhar por uma praça, de expressar ideias e opiniões sem medo. No seio da sociedade, a liberdade é o alicerce que sustenta os direitos humanos e os valores democráticos.
Ainda assim, até mesmo essa liberdade cotidiana pode ser ilusória. Quando observamos como somos influenciados por forças externas – normas sociais, regras de convivência e padrões de consumo –, percebemos o quanto nossas escolhas são condicionadas. Quantos de nós realmente escolhemos de forma livre?
Aqui, a reflexão sobre liberdade ganha profundidade. Para Sigmund Freud, por exemplo, o indivíduo comum está frequentemente inconsciente de seus impulsos e desejos mais profundos, tornando-se escravo de dinâmicas internas que ele sequer percebe. Já para Carl Jung, a liberdade requer uma jornada de autoconhecimento e individuação, na qual o ser humano se reconecta com seu verdadeiro Self. Apenas ao transcender as ilusões impostas pelo ego e pela sociedade, o indivíduo pode viver de forma autêntica.
No seio da sociedade, essa busca pela liberdade é, paradoxalmente, um esforço coletivo. Somos livres na medida em que respeitamos e garantimos a liberdade dos outros. Mas a convivência em sociedade também impõe limites à liberdade absoluta – e é aí que a verdadeira reflexão começa. Somos capazes de equilibrar o desejo individual por autonomia com a necessidade de viver em harmonia com o outro? Até onde vai nossa liberdade sem invadir a do próximo?
Por isso, a liberdade é mais do que um direito; é uma conquista contínua. Ela se manifesta tanto no nível pessoal quanto no coletivo. Ser livre é, simultaneamente, desvincular-se das correntes internas do desejo e encontrar formas de viver em equilíbrio em uma sociedade que frequentemente aprisiona o indivíduo em expectativas e convenções.
No fim, a liberdade é um estado de consciência. É a capacidade de existir plenamente no momento presente, em paz consigo mesmo e com o mundo, sem que o futuro nos escravize com promessas ou que as estruturas sociais nos impeçam de viver com autenticidade.


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