A Essência do Mal

A Essência do Mal

Desde criança, ouvia que o mundo era cruel. Cresci acreditando que os problemas sempre vinham de fora: coisas ruins aconteciam a pessoas más. Fui ensinado que a maldade tinha origem separada da humanidade, algo externo. Acreditava que todas as pessoas nasciam boas e eram atacadas ou contaminadas por um mal existente no mundo. Essa ideia foi reforçada pela minha educação religiosa, que constantemente alertava sobre “o demônio, inimigo das nossas almas”.

No entanto, com o tempo — talvez por volta dos 14 anos — comecei a questionar essas crenças. Uma das primeiras dúvidas surgiu quando vi meu pai gritando com minha mãe, que chorava. Aquilo me marcou profundamente. Meu pai era um homem religioso, muito respeitado entre os crentes, alguém que vivia em constante oração. Não conseguia entender como ele, um exemplo de fé e moralidade na comunidade, podia agir de forma tão contrária ao que era pregado na igreja.

Essa, porém, não foi a primeira vez que presenciei algo do tipo. Lembro que, aos 8 anos, vi minha irmã mais velha, já casada, chorando por causa das atitudes violentas de seu marido. Até hoje me recordo de suas palavras: “Tá vendo, neguinho, como ele me trata!” Naquele momento, não compreendi por que pessoas faziam mal a outras, aparentemente sem motivo. Na minha visão infantil, nos anos 70, era comum a punição física de pais para filhos como forma de disciplina. Contudo, eu sabia que as situações envolvendo minha mãe e minha irmã eram diferentes. Eram cruéis.

Cresci com uma firme convicção de que nunca trataria uma mulher ou qualquer outra pessoa dessa forma, porque não deixaria que o mal me atingisse. Esse compromisso me acompanhou ao longo da vida e, depois de criar seis filhos e passar por dois divórcios, posso afirmar que nunca incorri em condutas semelhantes.

Lembro de um episódio no meu primeiro divórcio, quando minha esposa, surpresa com minha decisão, disse: “Como assim você quer se divorciar? Você nunca me bateu!” Essa frase ficou comigo. Foi a confirmação de algo que eu já havia concluído há muito tempo: o mal não está fora de nós, mas dentro de quem o pratica.

Ao longo de mais de meio século de vida, presenciei muitas atitudes maldosas de uma pessoa contra outra, frequentemente de forma gratuita. Com o tempo, essas agressões perderam todo crédito comigo. Durante o período em que fui gestor de RH, supervisionei milhares de pessoas sob a influência da minha secretaria. Entre elas, desde funcionários mais simples até cargos de alta responsabilidade, alguns eram denunciados por agressões contra esposas e filhos. Sempre que isso ocorria, eu informava seus superiores e recomendava que essas pessoas recebessem acompanhamento psicológico. Para mim, essa identificação deixava claro que essas pessoas precisavam urgentemente de ajuda.

Hoje, tenho certeza de que o mal existe, mas não é algo externo. Ele decorre da mente e da alma de cada indivíduo. As atitudes violentas de uma pessoa contra outra não têm relação com fatores externos; tudo está na essência do próprio agressor. Diferentemente do que é ensinado pelas religiões ocidentais, o mal não é um inimigo externo da alma humana.

Desde antes da minha formação em psicanálise, tratei o mal como um reflexo dos instintos violentos presentes em indivíduos específicos. Durante meu período como advogado na área criminal, deparei-me com estatísticas alarmantes: menos de 2% dos encarcerados são efetivamente ressocializados, e, dentro desse percentual, encontram-se pessoas injustamente condenadas. Esses dados apenas reforçaram a minha compreensão de que a prática da maldade não depende necessariamente do ambiente onde o indivíduo foi criado. A maldade, em sua essência, está dentro de cada um de nós.

Por fim,a maldade não é um inimigo à espreita fora de nós, esperando para atacar. Ela nasce no íntimo de cada indivíduo, alimentada por escolhas, instintos e fraquezas que encontram terreno fértil na alma. Reconhecer isso é o primeiro passo para assumir responsabilidade por nossas ações. O verdadeiro combate ao mal não está em exorcismos ou culpas externas, mas na coragem de enfrentar nossos próprios demônios internos, transformando-os em consciência e humanidade. Afinal, a maior batalha da vida não é contra o mundo, mas dentro de nós mesmos.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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