A Busca pelo Divino e a Profundidade da Alma

A ideia de um ser supremo, o criador do universo — Deus —, sempre esteve presente no imaginário humano, atravessando séculos e permanecendo viva mesmo nas culturas mais antigas, cujas memórias já se perderam nas areias do tempo. Trata-se de um fenômeno universal, evidente ao examinarmos a história das religiões.

Isso nos leva a uma pergunta intrigante: por que temos essa fixação pelo divino? Ao longo da evolução humana, muitas teorias e crenças surgiram e desapareceram, mas a busca pelo significado persiste. Será que, no século XXI, existe um caminho capaz de oferecer uma resposta satisfatória para essa questão?

Como amante do empirismo, procuro respostas nas experiências cotidianas. E começo pelo único lugar ao qual todos temos acesso: nossa mente. Não me limito à razão, pois aplicar o método científico a essa questão é inviável. A ciência, fundamentada na razão, exige comprovações dentro de padrões estabelecidos, mas sabemos que muitos de seus ramos estão sujeitos a constantes revisões.

Reconheço que essa busca é extremamente complexa. No entanto, entre os diversos campos de investigação, a abordagem mais promissora parece estar voltada para a parte mais abstrata do ser humano: sua mente e sua alma. Essa dimensão, como sabemos, não pertence ao domínio das ciências naturais.

Nesse sentido, acredito que as respostas mais profundas podem vir da psicologia — em especial da psicologia profunda. Essa abordagem, ainda recente na longa trajetória de busca da humanidade, oferece um olhar peculiar que sempre converge no indivíduo. Surgida no século XX, ela nos convida a explorar dimensões interiores que podem iluminar algumas de nossas perguntas mais antigas.

Aqui, o autoconhecimento se revela essencial. Não podemos compreender o divino ou mesmo nossa alma sem primeiro nos conhecermos. Jung nos lembra que o caminho para o inconsciente e para as dimensões mais profundas da mente passa pela reflexão e pela análise de quem realmente somos.

O autoconhecimento é a chave para acessar as forças interiores que moldam nossos pensamentos, sentimentos e escolhas, ajudando-nos a compreender o que nos impulsiona — seja uma “outra vontade” ou algo que transcende nossa compreensão consciente.

Por que focar na alma? Observem: as religiões, ao longo da história, sempre falam sobre resgatar ou salvar a alma humana. Isso nos sugere que a alma é o ponto central dessa busca. Além disso, enquanto a ciência tem avançado significativamente na compreensão do corpo humano, ainda nada pode dizer sobre a alma. Esse vazio deixa espaço para outras formas de investigação que transcendem os limites do método científico.

A ciência já explica muito bem e até realiza feitos extraordinários no campo dos cinco sentidos. Contudo, como explicar o “Verbo de Deus”? Não é algo que inventamos, mas algo que nos ocorre — que nos atinge como uma inspiração ou intuição. Sobre isso, Jung afirma: “Isso não é algo que podemos controlar ou racionalizar completamente.”

Jung também destaca nossa tendência de tentar explicar tudo pela razão, mas lembra que há uma força instintiva em nós — algo que vem de “outra vontade”, que não é consciente e nos auxilia quando a razão falha. Esse aspecto instintivo, ou essa “outra vontade”, poderia ser uma manifestação divina, algo que transcende nossa compreensão consciente.

Ele nos alerta, ainda, sobre a profundidade das influências que nos moldam. Muitas vezes, não temos clareza total sobre o que vem da nossa mente e o que surge de algo além dela. Essa ambiguidade pode nos tornar inseguros, levando-nos a projetar explicações superficiais sobre nós mesmos.

Jung também ressalta o papel dos mitos, que são formas de o ser humano descrever os efeitos do divino. Por meio dos mitos, conseguimos compreender e dar sentido aos aspectos misteriosos e poderosos da vida que emergem tanto de dentro quanto de fora de nós.

Assim, ao explorar os mitos, somos convidados a reconhecer forças que atuam além de nosso controle direto e que, no entanto, influenciam profundamente nossas vidas. Por exemplo, na cultura ocidental, o mito da morte de Cristo na cruz e sua promessa de salvação permanece central para muitas pessoas, mesmo séculos após sua origem. Esse mito, mais do que uma narrativa histórica ou religiosa, simboliza uma mensagem universal: o sacrifício como caminho para a redenção e a transformação.

Jung analisou histórias como essa e as considerou expressões do inconsciente coletivo, repletas de significados que vão além de suas dimensões literais. O sacrifício de Cristo, nesse contexto, pode ser interpretado como um arquétipo — uma imagem primordial que reflete a luta humana para superar o sofrimento e alcançar um estado superior de existência.

Mesmo para aqueles que não praticam a fé cristã, o impacto desse mito se reflete em valores culturais, como a ideia de que a superação de desafios e o sacrifício pessoal podem levar ao crescimento e à transformação.

Dessa forma, o mito transcende sua base religiosa para influenciar profundamente como muitos indivíduos compreendem sua jornada pessoal e o sentido de sua vida.

Em última análise, os mitos funcionam como revelações, ajudando-nos a interpretar as “realidades do outro lado” — aquelas que existem além do que podemos ver e tocar, mas que sentimos de maneira profunda e transformadora.

Aqui, vale ressaltar que não estamos falando de crenças religiosas específicas ou de fé vinculada a rituais A ou B. A fé, neste contexto, é um produto da mente humana — uma convicção que eleva nosso grau de crença em algo e influencia os eventos que nos cercam. Trata-se do fantástico e extraordinário na vida humana.

Fé não é sinônimo de religião; é, antes, uma convergência de fatores que envolvem convicção, emoção e nossa capacidade de projetar significado para além do tangível. É essa conexão profunda que une mente, alma e a busca pelo transcendente. E o primeiro passo para essa conexão é o autoconhecimento, pois somente quando olhamos para dentro de nós mesmos podemos compreender o que está além.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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