Quem nunca se arrependeu de ter falado sobre si mesmo para os outros? Quem nunca confiou todos os detalhes da própria vida a um melhor amigo? Mas, por mais próximo que seja, essa pessoa não é parte da nossa identidade.
Lembro que, quando era jovem, nos anos 1980, eu tinha um melhor amigo. Fazíamos tudo juntos. Um dia, conheci uma garota nova na cidade e me interessei por ela. A primeira coisa que fiz foi contar tudo para ele. Já dá para imaginar o que aconteceu… Meu amigo usou tudo o que sabia sobre mim para me diminuir aos olhos dela. O resultado? Na próxima vez que encontrei minha “paquera”, ela estava beijando meu melhor amigo.
Essa história não foi a única. A situação se repetiu na minha vida profissional. Quando trabalhava como programador, ganhei o apelido de “Professor Pardal”, por ser criativo e ter sucesso na área. Mas minha dificuldade em manter segredo sobre meus projetos muitas vezes me trouxe grandes frustrações. Eu culpava os outros, mas a verdadeira questão era minha falta de discrição.
A última grande decepção veio quando eu tinha 28 anos e fui indicado como candidato a vice-prefeito da minha cidade. Mais uma vez, minha candidatura precoce foi prejudicada pela minha própria exposição, e acabei descartado da chapa. Não foi pelo meu histórico profissional ou pela falta de respeito da comunidade, mas por ser “transparente” demais e me expor antes do tempo.
Assim, sim, eu faço parte desse grupo. Sempre fui transparente, mas isso me trouxe inúmeras frustrações. Hoje, quero convidá-lo a refletir sobre o tema “segredo”. Não se trata de ser misterioso ou fechado, mas de proteger sua identidade, de resguardar quem você realmente é.
Após estudar a psique humana, percebi que minha dificuldade em guardar segredos ia mais fundo. Eu deixava minha individualidade completamente exposta, como se isso nunca pudesse me afetar. Mas a verdade é que, repetidas vezes, isso trouxe decepções e perdas.
Podemos aprender muito com a sabedoria milenar, como no provérbio árabe: “Nunca fale tudo que sabes e nunca conte tudo que tens”, porque preservar certas verdades e riquezas para nós mesmos nos fortalece. Guardar um pouco de quem somos e do que temos nos protege das influências externas e nos ajuda a manter nossa essência intacta. No silêncio e na reserva, encontramos espaço para refletir, crescer e preservar nossa autenticidade, sem a necessidade de validação ou julgamento. Esse equilíbrio é uma forma de sabedoria que nos mantém íntegros em um mundo cheio de expectativas e pressões.
O psiquiatra Carl Jung fala sobre a importância de manter um segredo ou ter uma identidade própria para proteger nossa individualidade, especialmente em um mundo onde as pessoas tendem a se misturar e a se perder em identidades coletivas — como grupos, religiões ou organizações. Para Jung, ter um segredo ou um objetivo pessoal fortalece nossa individualidade e nos ajuda a resistir à pressão de sermos como todo mundo.
O Poder do Segredo para o Autoconhecimento
Guardar um segredo pode parecer algo simples, mas é um ato profundo de autoconhecimento e respeito por si mesmo. Ter algo que seja só nosso, algo que não precisa de validação externa, fortalece nossa identidade. A proteção de nossa individualidade, tão única e preciosa, nos permite explorar o que somos sem a interferência das expectativas e julgamentos dos outros.
Às vezes, desistir de compartilhar tudo é um caminho para entender melhor quem realmente somos. É saber que certas partes de nós precisam ser guardadas, porque nelas reside nossa verdadeira força, nosso propósito e, principalmente, nossa liberdade. A grande verdade é que ser transparente demais com o mundo pode nos tornar invisíveis para nós mesmos.
Então, dê a si mesmo a permissão de ter um segredo e, com isso, preserve e fortaleça sua identidade. Afinal, é nesse espaço íntimo e protegido que o autoconhecimento se revela em sua forma mais autêntica.
Exercício de Reflexão: O que você escolhe guardar para si? Para explorar ainda mais a ideia de preservar sua individualidade, faça uma pausa e reflita:
- Quais partes de mim guardo só para mim? Liste aspectos da sua vida ou traços pessoais que você ainda não compartilha com os outros. Pode ser um projeto, um sonho ou mesmo um lado da sua personalidade que raramente mostra.
- Qual é a importância de manter isso em segredo? Pense em como esse segredo ou reserva ajuda a proteger sua essência e a manter sua individualidade. Pergunte-se: esse segredo me dá forças ou resguarda algo valioso para mim?
- O que posso aprender com esse segredo? Muitas vezes, aquilo que escolhemos manter guardado revela muito sobre o que valorizamos e quem somos de verdade. Reflita sobre o que esses aspectos significam para você e como podem ajudar no seu crescimento.
Essa prática de guardar e proteger algo sobre si mesmo não é só uma forma de defesa, mas também uma maneira de honrar sua verdadeira essência. Afinal, a liberdade e a autenticidade que buscamos frequentemente estão presentes nesses pequenos segredos que guardamos no íntimo de nosso ser.


Deixe um comentário