Durante quase 40 anos, nunca falei sobre isso. Mas algo que uma moça fez no início da minha adolescência afetou profundamente meus relacionamentos ao longo da vida. Vou contextualizar: havia uma jovem que admirava muito meu irmão mais velho, que tinha uns 18 anos na época. No entanto, ele a ignorava completamente. Em certo momento, essa moça começou a ser carinhosa comigo, e isso, aos poucos, evoluiu para algo mais sensual. No auge dessa situação, outra pessoa acabou impedindo que eu a visse nua. Você não imagina o impacto que isso teve na cabeça de um garoto no final dos anos 1970.
Foi só nos últimos 10 anos que percebi a importância desse evento, quando estava finalizando minha formação em psicanálise. Como parte do curso, precisei passar por um processo de análise pessoal. Foi nesse momento que me deparei com algo que havia ficado guardado por décadas. Não era apenas a lembrança de um momento constrangedor, mas o efeito profundo que aquilo teve na forma como eu via o afeto e a sexualidade. Sem perceber, aquele episódio influenciou a maneira como me relacionava com as pessoas, criando em mim um medo de me expor e uma constante expectativa de que algo ou alguém interrompesse qualquer intimidade.
A análise me deu a chance de revisitar esse momento com uma nova perspectiva, permitindo que eu refletisse sobre o impacto emocional que ele teve e, mais importante, sobre as defesas que criei para me proteger daquele choque. Foi no divã que entendi que aquilo não foi um acontecimento isolado, mas o início de um padrão inconsciente que carreguei por muito tempo.
A análise, diferente do que muitos pensam, não é apenas uma busca pelo passado por curiosidade, mas um encontro com o que existe de mais profundo dentro de nós, com aquilo que ignoramos ou escolhemos não enxergar. É um caminho de autoconhecimento que nos faz enfrentar as partes de nós que evitamos, mas que, de algum jeito, acabam nos moldando.
Por que fazer análise? Porque, no fim das contas, é uma oportunidade de libertação. Libertar-se das histórias não contadas, das emoções reprimidas e dos fantasmas que, por tanto tempo, controlaram nossas escolhas. A análise é um mergulho nas profundezas da alma, e é lá, no fundo, que encontramos as respostas que buscamos para uma vida mais plena e verdadeira.
Talvez a maior lição que aprendi é que só podemos seguir em frente quando permitimos olhar para trás, para aquilo que nos marcou e silenciou — e, finalmente, falar sobre isso. A análise é um processo transformador, que revela o impacto psicológico de eventos passados e nos oferece o poder de autoconhecimento e libertação.”


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