O Divino Dentro de Nós

Eu sou uma pessoa que encontra alegria e conforto no aconchego do lar, amante do silêncio e possuidor de um cantinho reservado para momentos de reflexão. Esse amor pelo lar me faz, muitas vezes, ser quem atende à campainha, o que, por si só, já me leva a ponderar sobre a nossa capacidade de estar sempre acessíveis. Lembro-me vividamente de uma corrida da minha varanda preferida até o portão da frente, uma corrida que me imergiu em reflexões sobre a constante presença em nossas vidas.

Essas reflexões se aprofundaram durante um diálogo, num domingo, com uma cliente, sobre a importância de conexões genuínas, de alma para alma. Nesse contexto, o conceito de onisciência começou a tomar forma em minha mente. Esse conceito, tradicionalmente associado a Deus – a ideia de um ser que tudo sabe e está em todos os lugares – começou a me fascinar desde a infância. Cresci ouvindo meu pai, um homem simples e devoto, pregar na igreja, o que me levava a questionar sobre a natureza divina e a sabedoria.

Minha jornada não parou na infância. Ao me aventurar pelos campos da psicologia, da psicanálise e da psicologia analítica, encontrei-me novamente frente a frente com essas indagações. Foi através de Freud, com sua conhecida aversão à religião, que comecei a entender o significado da onisciência sob uma nova luz. Ele explorava o inconsciente, essa parte oculta de nós que, mesmo desconhecida, molda nossas escolhas e comportamentos.

Carl Jung, ao discorrer sobre o inconsciente coletivo, aproximou-se ainda mais da ideia de onisciência, descrevendo-o como uma dimensão divina. Introduziu a noção de arquétipos, padrões de comportamento universais que transcendem tempo e cultura, ecoando a ideia de uma sabedoria onisciente.

Minha busca pelo entendimento não se limitou à psicanálise. Mergulhei no espiritismo de Allan Kardec e na Cabala, ambos sugerindo que somos faíscas de uma origem divina, buscando, através de nossa existência, retornar à unidade original.

Baruch Espinosa, meu pensador medieval favorito, ofereceu uma perspectiva de Deus como essência de tudo, não apenas como uma entidade onisciente, mas como a substância que interliga o universo.

Refletindo sobre todas essas visões ao longo dos anos, cheguei à conclusão de que a separação do propósito criativo é uma ilusão. Somos, de fato, parte de uma trama divina que conecta todas as coisas.

Tem um trecho do Evangelho segundo Lucas ressoa particularmente comigo, destacando que o Reino de Deus não é uma manifestação externa, mas algo que vive dentro de nós. Da mesma forma, os textos atribuídos a Tomé, encontrados em Nag Hammadi, com suas reflexões profundas sobre a divindade, a conexão divina-humana e a busca interna por conhecimento espiritual, reforçam essa verdade. Eles nos lembram que, ao nos conhecermos verdadeiramente, não só nós reconhecemos como filhos do divino, mas também evitamos viver na pobreza espiritual.

Ao tecer essas reflexões sobre a onisciência, sobre estar sempre presente e sobre as conexões profundas que cultivamos, tanto com o divino quanto com nosso íntimo, descortina-se diante de nós uma verdade universal: a verdadeira sabedoria reside não na busca externa pelo divino, mas no reconhecimento e na valorização da divindade que habita dentro de cada um de nós. Este entendimento nos convida a uma jornada de introspecção e autodescoberta, onde a verdadeira riqueza se revela não nas posses ou nos títulos, mas na plenitude de reconhecer-se parte de um todo maior, interconectado e divinamente inspirado.

À medida que nossos passos nos levam adiante nesse caminho, percebemos que as respostas às nossas buscas mais profundas e as soluções para nossos maiores enigmas não estão dispersas pelo mundo externo, mas sim enraizadas no território sagrado de nosso ser. Ao nos conhecermos, ao reconhecermos nossa essência divina, nós nos abrimos para uma vida repleta de propósito, harmonia e verdadeira felicidade.

Esta jornada é um convite para cada um de nós despir-se dos véus da ignorância, reconhecer a centelha divina que reside em nosso interior e, assim, caminhar com confiança rumo à luz da sabedoria e do amor incondicional. Pois, ao fazermos isso, não somente transformamos nossas vidas, mas também tecemos novos fios na tapeçaria cósmica, contribuindo para a evolução coletiva da consciência.

Que esta reflexão sirva como um farol, iluminando nossos caminhos com a compreensão de que, ao nos conhecermos verdadeiramente, ao cultivarmos nosso jardim interior com amor e atenção, nós não apenas encontramos Deus, mas descobrimos que Ele sempre esteve lá, dentro de nós, aguardando ser reconhecido. Esta é a verdadeira jornada, a verdadeira aventura: descobrir que o Reino de Deus, a onisciência divina, o propósito é a conexão mais profunda com tudo o que existe, começam e terminam dentro do coração humano.

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Sou Elizeu

O que posso dizer sobre mim? Sou aquariano, nascido no Sul e criado na Amazônia Ocidental — com os olhos voltados para o céu e o coração profundamente enraizado na terra.

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