A morte, embora inevitável, por que nos causa tanto pavor? Talvez porque seja um grande tabu, especialmente na cultura ocidental, onde a influência cristã moldou percepções sobre ela com profundos simbolismos.
A ideia de um salvador inocente que morreu na cruz pelos pecadores é frequentemente interpretada como um castigo, transformando a morte em uma apoteose. Contudo, é a mensagem que alguém deixa que o torna imortal.
Teologias à parte, nosso interesse aqui não é explorar o aspecto religioso da morte, mas refletir sobre ela sob uma perspectiva mais realista e positiva. Se acreditamos que a vida vai além da dimensão biológica, devemos enxergar a morte como algo que pode trazer um horizonte mais significativo.
Embora a ideia da morte como fim de uma existência seja chocante e desperte emoções intensas, do ponto de vista das ideias — ou do reino dos céus —, tudo pode ser mais claro. Como na canção dos Engenheiros do Hawaii: “E tudo ficou tão claro. O que era raro ficou comum. Como um dia depois do outro, como um dia, um dia comum.”
Recentemente, conheci uma perspectiva que me inspirou a escrever esta reflexão. Trata-se da ideia de que morremos três vezes ao longo da vida.
- A primeira morte ocorre quando perdemos a inocência — quando percebemos que o mundo não é como os contos de fadas.
- A segunda morte acontece quando abandonamos a ingenuidade e compreendemos que viver significa pagar o preço por nossas escolhas.
- A terceira morte é o fim físico, o momento final.
Essa visão faz todo o sentido quando refletimos sobre ela. Cada fase da vida nos oferece um mundo concebido segundo nosso grau de compreensão, e com cada morte, ganhamos uma nova perspectiva.
Por fim, suavizando o tema, podemos fazer uma analogia entre a vida e o ato de escrever, como disse Pablo Neruda: “Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final, e no meio você coloca ideias.”
Assim, nascemos, crescemos e nos desenvolvemos. Se formos capazes de reconhecer e compreender as duas primeiras mortes, estaremos mais preparados para enfrentar a última.


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