— Você não soube o que aquela safada me fez? Teve o que mereceu. Bem-feito…
Fazia tempo que eu desconfiava dela. Não era à toa. Pegou meus bagulhos sem pedir — quase dois mil em pedras. Essa danada descobriu onde era o meu “mocó”. Olha que estava escondido em um lugar que ninguém desconfiaria.
Ela ficou de butuca, observando tudo. Quando achou, não pensou duas vezes: levou os bagulhos e deixou o dinheiro no lugar. Foi aí que desconfiei dela. Sabia que era doida pela pedra. O vício dominava.
Mas, sabe, ela tinha algo que prendia o olhar. Era bonita, com um corpo que chamava atenção. Aqueles olhos vivos, o sorriso largo… Qualquer homem caía fácil. Mas tinha um problema: aquele jeito pervertido. E quando a “noia” batia, ela só queria o bagulho. Fazia o que fosse preciso para conseguir.
Eu sempre fui um cara tranquilo. Ou pelo menos achava que era.
Tudo começou a mudar há três anos, em um pagode na casa do meu primo. Ele é “boqueiro” no centro da cidade, só atende gente fina.
Era festa. O freezer estava cheio de “loiras geladas”, carne na brasa e som de primeira. As crianças se divertiam na piscina, e tinha mulher bonita por todo lado. Parecia festa de casamento de rico.
Naquele dia, algo mudou em mim. Eu não sabia que meu primo tinha tanto dinheiro. Mas fazia sentido: ele desfilava pela cidade numa Hilux Turbo zerada, toda invocada, com som nas alturas. Enquanto isso, eu ralava 10 horas por dia na banca de frutas, ganhando uma mixaria que mal dava para pagar aluguel, luz e água. Para comer, me virava com as quentinhas da dona Marta, lá na frente do cemitério.
Meu primo, não. Parecia um granfino, morando em uma casa de luxo com uma loira sarada, cheia de joias. Dizem que ela era filha de fazendeiro. Mas, no fundo, eu sabia: ela também curtia o bagulho.
Foi ali que me bateu a ideia. Comecei vendendo umas pedras para complementar a renda. Logo, tinha uma clientela fixa — uns caminhoneiros que pegavam toda semana e pagavam certinho no final do mês.
Minha vida melhorou. Comprei uma moto nova, uma casa simples, mas minha. Estava “fofo”. Mas aí veio ela. A bandida, com aquela cara de moça direita, virou minha vida do avesso.
Dei tudo para ela. Não só coisas. Dei minha confiança, meu tempo. Paguei remédios, mandei ajuda para a mãe dela, que vivia num barraco no fim da rua.
Eu acreditava nela. Esse foi meu erro.
Até que descobri o que fez. Foi como levar um soco no estômago. E no mesmo momento, senti uma raiva que não sei explicar. Talvez fosse a sensação de ser feito de otário.
Teve o que mereceu. Dois pipocos na nuca. O clarão iluminou tudo, e até senti o cheiro de cabelo queimado. Ela tombou como um saco de arroz. A bicicleta foi para um lado, e ela para o outro.
A rua estava escura. Você conhece, né? Lá no meu bairro, quase não tem lâmpadas acesas.
Quando vi o corpo estirado, confesso que hesitei por um segundo. Não era só o medo de ser pego. Era algo que cutucava por dentro, como uma dúvida: será que ela merecia? Mas, naquela hora, calei qualquer questionamento. A raiva era maior.
Saí direto para esconder o “ferro” na casa de um chegado na zona leste. Agora, estou aqui, de “férias” — risos. Pelo menos, a comida é melhor que as quentinhas da dona Marta.
Faltam uns cinco meses para eu sair. A juíza deve me soltar logo. O ruim é ter perdido minha clientela fiel. Vou ter que recomeçar do zero.
Mas já sei o que fazer. Vou voltar a vender para os caminhoneiros. Logo estarei montado numa motona zerada.
Mulher agora? Nunca mais no meu cafofo. Aprendi minha lição: mulheres e negócios não combinam.
Deixe um comentário