Você já se perguntou: o que realmente importa para mim? Estou vivendo de acordo com meus valores?
Essas perguntas parecem simples, mas carregam o peso de uma vida inteira de reflexões. No início dos anos 1990, elas começaram a emergir para mim de maneira dolorosa e transformadora.
Eu havia retornado à minha cidade natal, mas me sentia perdido. Frustrado, como se tivesse abandonado uma parte essencial de mim. Voar era mais do que um sonho de infância; era minha realização. Concluí o curso de piloto em 1993, mas ainda precisava passar por treinamentos técnicos para voar em condições adversas. A questão técnica, no entanto, não era o maior problema. O que realmente me incomodava era mais profundo.
Eu não havia criado raízes. Minha vida parecia flutuar, desprovida de estabilidade. Some-se a isso um divórcio precoce, após apenas dois anos de casamento. Aos 27 anos, sentia-me um estranho para mim mesmo. Hoje, olhando para trás, percebo que não sabia o que realmente importava. Eu estava dividido entre dois mundos: o sonho de voar e o desejo de estar próximo dos meus filhos.
Foi então que uma noite, após um longo dia de trabalho, em um restaurante que eu costumava frequentar, um garçom peculiar mudou o rumo da minha história. Com uma grande barba grisalha e uma presença marcante, ele me entregou um livro usado e disse: “Você precisa ler isso.” O livro era Assim Falava Zaratustra, de Nietzsche.
Eu mal sabia o que estava prestes a encontrar. Minha primeira impressão foi de estranhamento – o texto era denso e desafiador. Mas algo naquela leitura mexeu comigo. Percebi que estava vivendo de forma automática, culpando o mundo e as pessoas ao meu redor pela minha infelicidade. Na verdade, eram as minhas escolhas, ou a falta delas, que me haviam conduzido até aquele ponto.
A Transformação do Espírito
Foi nesse contexto que as palavras de Nietzsche começaram a fazer sentido. Ele descreve a jornada humana como uma transformação do espírito, composta por três estágios:
- O camelo: O momento em que carregamos as cargas impostas pela vida, aceitando obrigações e expectativas sem questioná-las.
- O leão: O estágio da rebeldia, quando rompemos com os valores herdados e começamos a lutar por nossa independência.
- A criança: O estágio final, onde atingimos a liberdade criativa, reinventando a vida com autenticidade e alegria.
Eu percebia, aos poucos, que estava preso no estágio do camelo. Submetia-me ao peso das expectativas alheias, sem questionar se aquilo realmente fazia sentido para mim.
O Espírito da Gravidade e a Vontade de Poder
Nietzsche também fala sobre o espírito da gravidade, um fardo que nos prende com ressentimento, pessimismo e conformidade. Era exatamente o que eu vivia naquela época. Libertar-me desse peso exigia cultivar a vontade de poder, essa força vital que nos impulsiona ao crescimento, à superação de nós mesmos e à expansão das nossas possibilidades.
Foi nesse ponto que comecei a questionar os valores que havia tomado como verdades absolutas. Não era mais sobre culpar o mundo, mas sobre assumir o controle das minhas escolhas e do meu caminho.
O Eterno Retorno: Viver com Intensidade
O conceito de eterno retorno de Nietzsche me impactou profundamente. Ele nos desafia a viver de maneira tão plena que aceitaríamos repetir nossas escolhas infinitamente. Eu percebia que, até então, não vivia de forma que pudesse aceitar esse desafio. Vivia no piloto automático, sem intensidade, sem paixão.
Abandonar o Conforto
Uma das mensagens mais provocativas de Nietzsche é o chamado a abandonar o conforto das comodidades da vida cotidiana. Isso não significa rejeitar prazeres simples, mas romper com a mediocridade, com a tendência de se acomodar e evitar riscos. Naquele momento, decidi que precisava abandonar a zona de conforto, mesmo que isso significasse enfrentar desafios dolorosos.
O Que Realmente Importa?
Hoje, com mais de três décadas de distância daquela época, vejo como essa transformação foi essencial. Compreendo que minha felicidade não depende de circunstâncias externas, mas da autenticidade com que escolho viver.
E você, já se perguntou o que realmente importa para si? Talvez seja hora de sair do piloto automático e começar a criar sua própria jornada, como o leão que se torna criança, livre para viver a vida com intensidade, coragem e autenticidade.

Deixe um comentário