Após vivenciar um evento que transformou minha vida de forma radical, comecei a refletir sobre a existência de um destino predeterminado em contraste com a ideia de que são nossas escolhas que definem os caminhos que tomamos, independentemente de um propósito maior. Essa reflexão me levou a uma descoberta intrigante: todos os grandes sonhos que alimentei durante minha infância e adolescência, até aqueles que havia esquecido, de alguma forma se tornaram realidade.
Lembro-me vividamente de um episódio marcante aos 15 anos, quando um acidente aéreo abalou a tranquilidade da minha pequena cidade. Corri até o local do desastre e, entre os destroços e o cheiro pungente de combustível, vi os restos do piloto, um conhecido do meu pai. Naquele momento, prometi a mim mesmo que me tornaria piloto. Com o passar dos anos, esse sonho foi esquecido. Tornei-me programador, casei e tive filhos. No entanto, após uma reviravolta na carreira e na vida pessoal, redescobri meu antigo desejo e me tornei piloto civil aos 25 anos.
Outra realização surpreendente ocorreu antes do nascimento da minha primeira filha. Refletindo sobre a paternidade, imaginei ter seis filhos, apesar das limitações financeiras e da relutância inicial da minha esposa. Anos mais tarde, após um divórcio e um novo casamento, esse número, de forma inesperada, se materializou.
Na década de 1980, em minha região, não havia faculdades que oferecessem o curso de Direito. Enquanto trabalhava em um banco como digitador, ao lado de colegas da mesma faixa etária, entre 18 e 20 anos, expressei o desejo de ir à faculdade para me tornar advogado. Contudo, com o advento de novos relacionamentos e mudanças de cidade, nem sequer havia concluído o ensino médio. Mas, ao completar 36 anos, com uma boa condição financeira e exercendo funções de destaque na minha cidade, minha esposa me surpreendeu ao dizer que havia me inscrito em um curso de suplência para concluir o ensino médio, incentivando-me a cursar Direito em seguida. Conforme ela sugeriu, realizei esse sonho aos 41 anos, embora tenha abandonado o curso antes, faltando apenas uma disciplina, pois não via necessidade na competência jurídica. No entanto, em 2015, devido a processos judiciais que precisei enfrentar, apressei-me em concluir o curso para obter o diploma de Direito e me inscrever na Ordem dos Advogados, o que se revelou crucial, pois naquele momento me encontrava desempregado após meu segundo divórcio.
Quando era programador, após deixar a aviação civil devido ao desemprego na área em minha região, comecei a dar aulas em um curso livre. Durante essas aulas, mencionei aos alunos que, aos 50 anos, seria um escritor, publicaria livros e ministraria palestras. Nunca havia tentado escrever seriamente, mas, durante a pandemia de 2020, conheci minha atual esposa que leu os textos do blog que escrevia desde 2019, como uma forma de terapia sobre autoconhecimento. Ela me encorajou a publicar meu primeiro livro, que se tornou um sucesso de vendas, alcançando o segundo lugar na lista dos mais vendidos da Amazon naquele ano. Só me lembrei desse sonho antigo no ano passado, quando minhas publicações já somavam 14 títulos entre e-books e livros impressos.
Essas experiências me fizeram ponderar sobre as concepções de propósito de vida em diferentes campos do conhecimento. Os estoicos encaram a vida como um papel a ser desempenhado no cosmos, enquanto o existencialismo enfatiza a liberdade e a responsabilidade individuais na criação de um propósito próprio. A dinâmica entre caos e ordem, livre-arbítrio e determinismo, oferece uma perspectiva através da qual podemos examinar a complexidade da existência humana. A teoria do caos, por exemplo, ilustra como pequenas variações nas condições iniciais podem resultar em grandes diferenças nos desfechos, sugerindo que, mesmo em meio ao imprevisível, padrões e significados podem emergir.
A interação entre livre-arbítrio e determinismo destaca a tensão entre nossas escolhas individuais e as circunstâncias que nos moldam. Essa dualidade reflete a complexidade de navegar entre o desejo por autonomia e a aceitação de um destino ou propósito maior. Em última análise, a busca por um propósito na vida é uma jornada pessoal e íntima, enriquecida por uma miríade de influências, desde crenças espirituais até insights científicos. Minha própria trajetória, marcada pela interação entre escolhas pessoais e eventos inesperados, ressoa com a ideia de que, embora não possamos compreender plenamente o grande esquema das coisas, ainda temos o poder de conferir significado à nossa existência. Por meio das escolhas que fazemos e de como respondemos às vicissitudes da vida, continuamos a tecer o tapeçário de nosso próprio destino, encontrando, nesse processo, nossa versão única do propósito da existência.


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